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Boadicéia - Parte 1

Apressado, o escritor Durval Demétrio atravessa os corredores do castelo em direção à sala do rei. Enquanto anda, tenta organizar os inúmeros manuscritos que carrega consigo. Ele foi encarregado de escrever a biografia do monarca, registrar para a posteridade do reino todos os fatos que marcaram a vida do soberano. Seria algo até simples para um escritor talentoso como ele, afinal, bastaria florear um pouco o texto, inventar uma mentira ali outra aqui e pronto, o registro histórico de uma vida toda estaria preparado rapidamente e com milhares de detalhes heróicos. Porém, para Demétrio esse era exatamente o problema... ele não estava escrevendo sobre um dos muitos reis gordos, opulentos e presunçosos que existiam espalhados pelo mundo. Cabia a ele escrever sobre um herói verdadeiro, uma lenda viva, que durante toda vida venceu desafios impossíveis e fez milagres aos olhos de seus súditos e seguidores. O rei a ser descrito pelas linhas hábeis de Demétrio era um exemplo máximo das qualidades que existiam no mundo. Justiça, coragem, fé e bondade. Ele era um líder admirável, alguém que viveu uma vida cheia e completa. Uma vida tão complexa e rica em detalhes, que tornava o serviço do escritor uma missão titânica. O rei no início do trabalho mostrou-se um tanto quanto contrário à idéia de relatar as passagens da sua vida, mas era algo necessário, pois logo um de seus filhos herdaria o trono e o passado precisaria ser registrado... essa era a tradição. Não havia como negar que era uma honra, uma oportunidade rara para qualquer um poder entrar em contato com alguém que tinha seu nome conhecido em dezenas de outras terras. Era uma responsabilidade extremamente pesada. Se desejar compreender isso, apenas imagine estar na mesma sala que um herói lendário e ser obrigado a conversar com ele em pé de igualdade. A porta do aposento do rei estava entreaberta quando Demétrio chegou.Com um tom de voz formal ele pede:

- Posso entrar, senhor...?

Dois segundos de silêncio e então se escuta a voz grave do rei, uma voz que carrega consigo o peso da experiência e da idade.

- Pode sim, Durval... pode sim. Vamos começar novamente com aquela inutilidade de escrever sobre a minha vida?

- Falta pouco para terminamos senhor, praticamente todos os textos principais já foram escritos, restam apenas alguns detalhes e descrever a sua juventude.

- Você acha que eu ainda lembro-me da minha juventude? ...bem que eu queria, Durval, mas envelheci. Minha memória não é a mesma.

Lutei durante tantos anos e hoje sei apenas que preciso enfrentar o peso de uma coroa em minha cabeça, e as responsabilidades pelas decisões que influenciam as vidas de meu povo. Ser rei não é tão bom quanto eu imaginava quando era criança... hmmm... bons tempos aqueles.

Com passos pensativos o monarca anda até a sacada do quarto, lugar de onde pode mirar com facilidade o horizonte e seus domínios. Durante tantos anos ele defendeu o que julgava ser justo e correto, enfrentou o mal como se tivesse nascido para isso, como se essa fosse sua missão.

- O senhor queria ser um herói quando era criança?

- Sim, eu queria. Como todos nós queremos quando somos crianças, Durval, como todos nós sonhamos um dia...

 

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